Aedas Entrevista | Leia depoimentos de pessoas atingidas sobre possível acordo que excluiu população




Atingidos e atingidas da Bacia do Paraopeba continuam sem voz e sem vez na negociação do acordo de reparação de danos coletivos dos prejuízos sociais, econômicos e ambientais provocados pela Vale em Brumadinho. Uma audiência de conciliação está marcada para esta quarta-feira, dia 9 de dezembro, entre as partes: Estado de Minas Gerais, Instituições de Justiça e mineradora Vale. Até hoje a população atingida desconhece os termos do acordo que foram classificados como confidenciais.


Confira nessa matéria alguns depoimentos de pessoas atingidas que expressam a indignação de quem sofre na pele as consequências do crime ambiental e que, às vésperas da audiência, veem seu futuro sendo decidido sem poder participar das negociações.

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Depoimento 1: Damiana Aparecida Lima (Região 1)


“Nesse processo de reparação de danos, nossas reivindicações não estão sendo ouvidas, os nossos direitos estão sendo violados pela Vale uma segunda vez. Agora, vem o Governo querendo fazer acordo a portas fechadas sem a participação dos atingidos, isso é golpe. Porque acordo feito que não tem participação dos atingidos não é válido.


Eu não concordo com isso. Por que? Porque é o nosso futuro, como que vai ser se não participamos das negociações? Dos nossos filhos, como que vai ser? A nossa saúde, como é que vai ser? Nossos direitos violados, nossas reivindicações não estão sendo ouvidas e nem estão sendo solucionados nossos problemas. É a nossa vida, nosso futuro que está em jogo.


São muitas incertezas, sabe? Mas eu tenho muita fé em Deus que a nossa luta não será em vão, que o sangue derramado daqueles que estão lá debaixo daquela lama não foi em vão. Então, assim, eu tenho fé, este acordo pode até acontecer sim, mas queremos nossos direitos e a nossa participação dos atingidos ali, lado a lado.


Para cada acordo, a gente quer ter a garantia da nossa participação, e também das ATIs, as assessorias técnicas que escolhemos para nos assessorar. Espero que o poder público e a Justiça tenham decência de olhar pelos atingidos.


E vai um recadinho para o senhor Zema: se o senhor pensa que nós estamos mortos, não estamos, nós estamos vivos. Lutaremos até o fim, porque direito é direito, atingidos precisam ter voz. Se não for de um jeito será de outro, nós vamos gritar e exigir que sejamos ouvidos”.




Depoimento 2: S* (Região 2)


E o que eu acho da negociação em curso? Eu acho isso ridículo. A voz dos atingidos está sendo ignorada e isso é ridículo. Isso não tem sequer uma explicação, eu não tenho nem palavras para expressar o fato de não termos voz, de não podermos expressar sentimentos, não podermos nos defender.


Isso que o Governo está fazendo junto com a Vale é um absurdo. Nós atingidos estamos sofrendo muito com essa situação, onde nós não podemos participar de um direito que é nosso, nós deveríamos estar presente nessa negociação para mostrar para o governo nossa situação.


O que eu tenho observado é muito constrangedor, para nós atingidos está sendo muito triste. Porque o Governo não é atingido, ele não sabe o que é ser atingido. O governo tinha que pôr a mão na consciência e entender, vir participar, descer Bacia abaixo para ver de perto a situação de cada atingido e de cada comunidade.


Então a gente vive uma incerteza. Sabe qual a nossa certeza? Que existe a justiça de Deus, porque no nosso Brasil infelizmente não tem justiça dos homens. A Vale fez o que ela fez e continua impune, aí vem o Governo querer fazer um acordo do qual beneficia ele e nós atingidos continuamos no sofrimento. A nossa expectativa é só de tristeza, dor, angústia, sem saber o que nós podemos fazer pois não temos voz e vez”.


*Pessoa atingida da R2 que pediu para não ser identificada.





Depoimento 3: Renato Moreira (Região 3)


"Esse acordo sendo tecido, agora é sigilo, né, ou é confidencialidade, não sei. Mas só sei que é uma forma que tá sendo assim, bem misteriosa até. Ninguém sabe qual é o teor das negociações, não sabe se está para beneficiar ou se está para acabar de afundar a carroça.


Esse acordo tinha que ser uma coisa aberta, transparente, com o poder de decisão daqueles que sofrem. Porque não tem como uma pessoa que está vivendo lá em Belo Horizonte, no conforto de ter transporte coletivo, supermercado, ter condição e opção de lazer, tentar dar pitaco na situação daquelas pessoas que vivem de forma restrita, limitada.


Não é todo mundo que tem uma piscina para se refrescar no domingo, nós tínhamos o rio; não é todo mundo que tem condição de ir no mercado comprar um peixinho fresquinho, o nosso era o rio. Então a vida dessas pessoas girava em torno do rio, o rio era aquele sistema que dava subsistência para os que estavam perto dele.


O poder público, nenhum deles levantou das cadeiras para vir na beira do rio, ver a lama, ver qual cheiro que tem lá. Essa decisão é muito pessoal, se eles não conseguem ir lá, pelo menos ouvir e ver o que os atingidos têm a mostrar e a falar.


Esse acordo fechado assim, inibe totalmente essa exposição de provas, de que a destruição do rio agrediu completamente o sistema de vida do pessoal. O emergencial era para todos que foram atingidos pelo rompimento da barragem. E nós não recebemos, ela fez um total descaso, dizendo que a gente não tinha direito, não se enquadra nos critérios deles".





Depoimento 4: Lionete (Região 4)

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"Eu tenho vergonha dessa situação, do Estado de Minas Gerais estar fazendo isso com os atingidos. Não é uma coisa que se possa fazer, um acordo sigiloso, sendo que é a nossa história, nós devemos ter voz para nos defender, como nós vamos aceitar uma coisa que nem sabemos o que está sendo discutido?


Vocês sabem como esses governantes são, eu como brasileira e atingida, estou cansada de ver isso. Com quem vai ficar esse dinheiro? É a nossa preocupação. Já ficamos sabendo que vai para o Rodoanel e para o Metrô. Fiquei revoltada quando soube, não concordo.


Porque a prioridade dos atingidos é restaurar o rio. A gente parou de receber o emergencial que estava pelo menos nos salvando, e foi por causa desse emergencial que eu parei de receber que eu fechei as portas do meu comércio, porque era com ele que eu estava pelo menos pagando o meu aluguel. Eu e meus pais paramos de receber em dezembro de 2019, um ano que estou nessa batalha, lutando.


Eu moro no Recanto do Laranjo, um povoado. Enquanto eu tiver voz, eu não tenho medo. Nós somos atingidos, estamos atolados até o pescoço e não devemos ter medo de falar, pelo contrário. Nós estamos nos sentindo lideranças ameaçadas pela Vale, que já cortou o emergencial das meninas há três semanas. Eu falei para as meninas, não fique com medo da Vale não, porque como agora os atingidos estão com direito à voz, nos Tribunais, nas audiências, nas mídias, então a Vale precisa ficar com medo.


Sou uma atingida que precisa, infelizmente, de medicação pra dormir agora, tomo uns remedinhos, já estou com o psiquiatra. Se é para ficar aqui sem dormir, eu vou pelo menos divulgar o que essa empresa está fazendo com a gente. Às vezes nem com o remédio eu consigo dormir. Eu estou muito ansiosa até o dia 9, os atingidos em geral, está todo mundo naquela ansiedade, é muito difícil.


Até a publicação deste texto, não conseguimos entrevistar pessoas atingidas da região 5 da Bacia do Paraopeba.


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