AEDAS realiza seminários para exercer a escuta e entender danos de caseiras e caseiros e sitiantes

Atualizado: 17 de Out de 2019

Você já parou para pensar se existe diferença entre ouvir e escutar? São duas palavras que usamos rotineiramente, mas muitas vezes não paramos para pensar o que significa ouvir e o que significa escutar. A Assessoria Técnica da AEDAS em Itatiaiuçu tem como pilar a escuta de atingidos e atingidas e não simplesmente o ouvir. Mas afinal qual a diferença?


Ouvir remete ao sentido da audição, é aquilo que o ouvido capta. Já escutar é entender o que está sendo captado pela audição, mas além disso, compreender e processar a informação internamente. Em outras palavras, escutar corresponde ao ato de ouvir com atenção, assimilar o que se escutou.



E no intuito de escutar para entender como se sentem e quais foram os danos causados e como encontrar formas de mitigar, reparar, ressarcir, restituir e indenizar caseiros e caseiras atingidas e sitiantes atingidos pelo PAEBM, a AEDAS realizou no sábado 28 de setembro dois seminários temáticos: I Seminário temático: Caseiras e Caseiros atingidos pelo PAEBM e II Seminário Temático: Sitiantes atingidos pelo PAEBM.


Os seminários foram espaços de escuta e conversa entre caseiras e caseiros e depois entre sitiantes para entender as demandas e necessidades de cada categoria. Os seminários fazem parte do Plano de Trabalho apresentado pela AEDAS para os atingidos e atingidas, Ministério Público e empresa.


I Seminário temático: caseiras e Caseiros


“Cheguei perto de sentir um pouco da dor daquele pessoal de Brumadinho”


O I seminário de caseiras e caseiros foi um espaço para que falassem sobre como se sentem em perder a renda e o direito à moradia, como se sentem em ser atingidos e atingidas, além de apontar os danos sofridos. No seminário ainda reencontraram velhas amizades e fortaleceram a ideia de buscar a reparação integral e continuar com suas vidas que parece estar em pausa.


“Ser atingida é uma sensação horrível, uma coisa que a gente não esperava que fosse acontecer”, afirmou Maria Aparecida de Souza Salgado, da comunidade de Pinheiros e que foi deslocada para Quintas de Itatiaia. A atingida ainda expressou a necessidade da união das famílias atingidas: “com o tempo a gente vai se adaptando, momento após momento, o grupo por inteiro, juntos podemos encontrar uma solução”.


O seminário também foi um espaço de resgate do que se viveu desde o dia 8 de fevereiro. O atingido Ezequiel Matias da Fonseca relembrou como se sentiu na madrugada dessa sexta-feira: “eu acho que eu cheguei perto de sentir um pouco da dor daquele pessoal de Brumadinho, porque até então a gente via na televisão todo aquele noticiário, a gente viu aquela barragem explodindo lá e ali a gente já sentiu uma dor imensa no coração em saber e ver aquelas pessoas dentro de uma lama e tal, mas no dia do acionamento eu não estava aqui em casa, minha mulher ligou para mim no desespero, na minha cabeça a barragem estava descendo, então eu já comecei a projetar na minha mente imagens do que eu já tinha visto, e entrei em pânico, dirige de maneira irresponsável para chegar aqui rápido pra dar apoio a ela, saber o que tinha acontecido, sempre ligando, dirigindo, dirigindo e ligando pra ela, para saber, o meu medo era de estar assim.. chegar aqui e minha família estar debaixo da lama”, contou Ezequiel.


Um dos objetivos do Seminário era identificar os danos causados pelo acionamento do PAEMB. Para isso, participantes foram separados em dois grupos para narrar suas vidas e contar como era a vida antes do Plano Emergencial e como estava agora. Os danos ali expressados foram anotados em um cartaz e socializado no final do seminário. Dentre os danos citadas estava: a perda do espaço para trabalhar, perda da moradia, perda da plantação de mandioca, perda do espaço para brincadeira dos filhos, perda da relação com o patrão.


II Seminário Temático: Sitiantes


Eu quero uma casa no campo. Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé. Onde eu possa plantar meus amigos. Meus discos e livros e nada mais.


Feche os olhos. Imagine você sentado ou sentada na cadeira de balanço, vendo sua família ali, rindo, conversando, as crianças correndo, brincando. O que se sente? Felicidade? Talvez. Agora imagina cada pessoa sumindo de repente na sua frente, uma por uma. Você, agora, está sozinho ou sozinha, tiraram sua família, as crianças, sua cadeira de balanço, seu sapato. Você está no chão e aquele silêncio sufocante impregnado no ar. Como você se sente? Feliz? Triste?


No II Seminário temático, estes questionamentos foram feitos aos participantes. A atingida Solange Almeida de Medeiros Costa, moradora de Pinheiros, expressou como se sentiu com este cenário, que não é hipotético para muitas famílias de Itatiaiuçu: “eu acredito que quem está de fora não fica insensível. Porque é impossível ficar insensível com a situação, mesmo que não esteja vivendo a experiência assim diretamente. Mas pra quem viveu, aquele teatrinho apresentado, na sua simplicidade, na sua singeleza, demonstrou toda a sensação de perda que a gente teve. E, por um certo aspecto, nossa dignidade também foi mexida. Lembrar do que nos foi tirado da noite pro dia é muito forte”.


O seminário foi o espaço para os sitiantes expressar o que estão sofrendo neste processo que começou em fevereiro. “Para nós foi fundamental este momento. Foi o primeiro momento em que nós, sitiantes, tivemos a palavra aberta diante dos nossos pares. Até então a gente não tinha tido nem representatividade, nem espaço, nesta oportunidade foi possível chegar a um consenso para criar propostas que sejam coletivas e não individuais”, afirmou Solange.


Mesmo com todo o sentimento a flor da pele, sitiantes conseguiram identificar as perdas e danos sofridos desde o acionamento do Plano. Apontaram a perda do direito ao lazer, a desvalorização dos imóveis, perda de renda, perda de plantações, perda ao acesso as propriedades como danos sofridos e que continuam sofrendo.




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