Cuidado e amor: o legado da D. Martha



“Não vou dar entrevista, estou muito para baixo, não vou passar coisas positivas e eu sempre fui muito positiva, deixa eu melhorar”. Estas foram as palavras da Dona Martha, de Lagoa das Flores, atingida pelo acionamento do Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM) em Itatiaiuçu no final de fevereiro de 2020. Dona Martha iria dar entrevista para a Assessoria Técnica contando sua história e trajetória no município de Itatiaiuçu que resolveu chamar de seu há alguns anos quando saiu de Belo Horizonte e foi morar em Lagoa das Flores. Infelizmente Dona Martha não melhorou e o mês de abril chegou com a notícia de sua partida. Mas quem foi Dona Martha?


Dona Martha foi atingida pelo acionamento do Plano de Ação de Emergência para Barragens de Mineração (PAEBM) da ArcelorMittal em Itatiaiuçu e desde o dia 08 de fevereiro de 2019 luta pelos direitos de atingidos e atingidas. Ela foi retirada de sua casa, no dia 08 de fevereiro, e levada para um hotel em Itaúna por alguns dias e lá começou sua luta por direitos. Primeiro compôs a Comissão de Atingidos (as), depois negociou com a empresa, dialogou com outras pessoas atingidas, tranquilizou e animou as comunidades de Lagoa das Flores, Vieiras e Pinheiros.



A irmã da Dona Martha, Magda, contou que em Itatiaiuçu, Dona Martha não tinha só amigos e sim uma família e que ela se importava com as pessoas e seu bem-estar. “Martha sempre falou que quem ama cuida e a vida toda ela foi uma cuidadora. Nasceu para cuidar, com seu jeito estabanado, mas que era isso que a fazia feliz, cuidar das pessoas que amava”.


Dona Martha nasceu em Passa Tempo, cerca de 150 km de BH, viveu com a família em Piracema por um tempo e foi ainda muito jovem para a capital mineira. A família da D. Martha é numerosa, 16 filhos, 8 homens e 8 mulheres. A mãe, Dona Corina, foi uma mulher guerreira, lutou para cuidar dos 16 filhos e filhas na grande cidade. Magda falou que a mãe sempre foi uma inspiração para as filhas: “Nossa mãe sempre falou que a vida não é fácil, mas que íamos encontrar nosso espaço através do caráter e do respeito”.


Antes de se mudar para Itatiaiuçu, o lugar que escolheu para viver, Dona Martha trabalhou muito, começou como balconista de uma livraria, depois como secretaria de uma fábrica de colchão, um universo dominado por homens, mas que não a intimidou. Aos poucos ela conquistou seu espaço até se tornar responsável por visitar as fábricas pelo Brasil e virar representante comercial.


Foram anos de muito trabalho e também de muitas conquistas, e uma delas foi sua casa em Lagoa das Flores: “Martha sempre falou que depois de trabalhar tanto ela queria qualidade de vida e que tinha escolhido Itatiaiuçu como última morada. Riamos daquilo, nunca íamos pensar que ela ia partir tão rápido”, relembrou Magda. “Martha não constitui família, mas ela adotou a minha como sua, meu marido Toninho e minha filha Jéssica e toda a comunidade de Itatiaiuçu. Tínhamos uma cumplicidade muito grande, uma ligação forte, ela precisava falar nada que só te ver eu sabia como ela se sentia”, desabafou Magda.


Lagoa das Flores foi a comunidade escolhida por Dona Martha para viver. Ela só queria um lugar tranquilo para cuidar de suas flores e plantas ao lado do seu fiel escudeiro, o cachorro Fox, quando se aposentasse. Dona Martha conheceu Itatiaiuçu por meio de sua irmã, que foi morar em Lagoa das Flores para cuidar da saúde em um lugar tranquilo. “Ela colocou tudo ali, vendeu seu apartamento em BH e depositou sua vida ali. Cada planta foi colocada em seu lugar, tudo foi pensado do jeito que ela sonhou”.


No início Dona Martha morou com sua irmã, foram anos as duas juntas. Até que Dona Martha encontrou a casa certa, no lugar certo, com o tamanho certo. E tudo parecia certo. Dona Martha arrumou a casa como sempre sonhou, um jardim grande para cultivar sua grande paixão, as flores e as plantas, uma casa aconchegante que acolhesse a quem se ama, um bom fogão de lenha para grandes almoços em família. Embora não gostasse muito de cozinhar, a cozinha sempre foi um ponto de encontro e de boas conversas. Ainda tinha a horta, os pés de limão, a vista para uma linda área verde e o cantar dos passarinhos. A casa era o lar de Dona Martha: “Vou para meu paraíso”, era assim que Dona Martha se referia a sua casa.


Mas desde o acionamento do PAEBM, Dona Martha estava desgostosa com sua casa. Com o risco do rompimento da barragem da ArcelorMittal, o lar de Dona Martha estava ameaçado, próximo a uma área de risco, ela sofria por ver seu sonho se romper aos poucos. “Martha falava que tinha acabado o mundo dela, viu o que construiu ir embora, foram

momentos terríveis”, contou Magda.



Dona Martha tinha uma fé muito grande. E isso era uma de suas fortalezas. Sua irmã Magda contou que Dona Martha nunca desistiu porque sua mãe não desistiu. Ela dizia que tinha que ser ponte, que as pessoas precisam cruzar a ponte e olhar para o lado e para trás, para quem precisava. “Para mim este é o legado de Martha vai deixar, que devemos ser pontes, ter união, respeito e amor. Acredito que as pessoas de Itatiaiuçu aprenderam a lutar por seus direitos e que minha irmã inspirou muitas pessoas a seguir na luta”, confessou Magda.


O medo e a tristeza não a desanimaram. Magda contou que Dona Martha falava: “vou pegar toda essa tristeza, essa angustia e vou virar uma leoa, transformar em força e lutar pela comunidade”. Dona Martha não queria nada para ela, queria para a comunidade, queria o bem das pessoas que também eram sua família. Magda relembrou as palavras da irmã: “Lutamos pelo direito das pessoas, estou preocupada com a comunidade, quero o justo para todos”. Dona Martha teve um papel fundamental nas negociações do Termo de Acordo Prelimiar (TAP), se posicionou frente a ArcelorMittal como uma autêntica representante da coletividade e lutou pelos deireitos dos atingidos (as).


Dona Martha sempre se cuidou muito, era atenta com sua saúde e cuidava para que tudo estivesse em ordem com exames e a alimentação. No último ano, com o acionamento do Plano de Emergência, ela se descuidou. Sua prioridade era ajudar as pessoas e não tinha mais tanto tempo para ela. Magda contou: “Ela deixou de se cuidar, sempre tinha uma atividade, o telefone não parava de tocar. Era uma referência na comunidade e tinha o respeito das pessoas. E ela fazia tudo por amor, sua prioridade era cuidar das pessoas”.


Os últimos meses foram difíceis para Dona Martha. Sua irmã e vizinha saiu de casa, não podia mais cuidar da saúde em um lugar que não era mais tranquilo. Dona Martha ficou triste. A luta por direitos foi exigindo mais dedicação e a saúde foi ficando cada dia mais frágil. Dona Martha cuidava de todos e todas e as vezes se esquecia de si mesma. Tomou seu tempo, pediu para se afastar um pouco da luta para poder se cuidar. Embora sempre estivesse ali presente com uma palavra sábia.


Dona Martha passou a se dedicar a cuidar de si. A se fortalecer para voltar para a luta de direitos, para poder voltar para sua casa, para seu jardim, para sua vida. Mas, infelizmente, Dona Martha não volta mais. Não fisicamente! Dona Martha volta, ou melhor, nunca se foi, de nossos corações e pensamentos. Dona Martha sempre será a senhora de cabelos brancos com seu carro Fiat Uno prateado andando por Itatiaiuçu e levando esperança e um sorriso para quem precisa.


Obrigada D. Martha!

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