Danos à cultura, esporte e lazer são tema de Roda de Diálogo

A terceira Roda de Diálogo (RD) das regiões 1 e 2 da Bacia do Paraopeba foi realizada na última terça-feira (22) e teve como tema Patrimônio Cultural, Esporte e Lazer e os danos causados após o rompimento da Barragem Córrego do Feijão. Famílias atingidas em Brumadinho, Betim, Igarapé, Juatuba, Mário Campos e São Joaquim de Bicas participaram do espaço organizado pela Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas).


A RD abordou os danos à cultura que alteraram o cotidiano dos moradores e das moradoras das regiões atingidas, impedindo a realização de manifestações culturais, religiosas, práticas de esporte e lazer, a maioria deles envolvendo o Rio Paraopeba, contaminado com os rejeitos tóxicos da barragem da Vale.


As Rodas de Diálogos acontecem de forma virtual para evitar a propagação da Covid-19. Já foram realizadas rodas de diálogos sobre Auxílio Emergencial e sobre os impactos na Saúde das pessoas atingidas.


Temas importantes


Os eixos debatidos na Roda de Diálogo abrangem quatro grandes áreas:


1) A Cultura como as relações dinâmicas que dão sentido às ações sociais, modos de vida e todas as suas representações.

2) O Patrimônio Cultural como os bens materiais (bens móveis, como acervos, documentos, coleções; ou bens imóveis, como imóveis históricos, culturais, ou de valor artístico, sítios arqueológicos ou mesmo paisagísticos), imateriais (manifestações culturais) e naturais (com destaque para o Rio Paraopeba) que possuem valor histórico e cultural para os moradores das regiões atingidas.

3) O lazer como as atividades de repouso, diversão e recreação.

4) E o esporte como as atividades físicas de caráter educativo, recreativo ou profissional.


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O conteúdo é baseado nas discussões realizadas nos Grupos de Atingidos e Atingidas (GAAs) e detalha os conceitos, bem como os marcos legais que garantem os direitos relacionados ao campo da cultura, do patrimônio cultural, do esporte e do lazer.


A coordenadora da área temática da R1, Cleide Hilda, explica que os danos do rompimento prejudicaram tanto a identidade cultural de cada pessoa atingida como a identidade coletiva das cidades e distritos afetados.


“A importância desse tema para a Aedas é resgatar esse processo, é trazer de volta aquele espaço de vida, aquela cultura local, os grupos e manifestações culturais, tudo isso é importante para a vida das pessoas. Acredito que sem a cultura, o patrimônio, o esporte e o lazer, as pessoas seriam muito mais tristes”, apontou a coordenadora da Aedas.


A coordenadora da área temática da R2, Roberta Salgueiro, conta que foram disponibilizados links para a realização de 12 RDs na R1 e de 15 RDs na R2. "Ainda não temos a sistematização do quantitativo de participantes totais nas rodas, mas sabemos que houve rodas com grande engajamento, em que se ofereceram maiores detalhamentos sobre as medidas emergenciais, como a atenção ao artesanato e aos fazedores de queijo. A equipe também observou grande participação de mulheres", disse.


Roberta também ressalta que as Rodas de Diálogo contribuem para que as pessoas atingidas possam exercer seu direito à “participação informada” no processo. "Observamos, durante os GAAs, que as pessoas atingidas sentem muito a falta de informação – seja sobre os impactos do rompimento, seja sobre seus direitos. As RDs são espaços de escuta, de retorno dessa escuta em forma de medidas, mas também de informação à população", salienta.


Foram mais de 80 danos relatados pelos moradores na fase dos Grupos de Atingidos e Atingidas (GAAs) com propostas de medidas emergenciais para as áreas da cultura, patrimônio, esporte e lazer. Todas essas informações foram sistematizadas pelos técnicos da Aedas e foram confirmadas pela população atingida durante a Roda de Diálogo.


Validação e sistematização de informações


"O objetivo das Rodas de Diálogo é validar todas as informações que as pessoas atingidas passaram para Aedas através dos GAAs. Validar é dizer se estão de acordo com as resoluções que a Aedas captou junto aos atingidos. As pessoas atingidas também puderam corrigir ou acrescentar novas propostas de medidas emergenciais e de danos", explicou Diego Silveira, assessor da mobilização que coordenou uma das RDs na Região 2. O documento final será encaminhado às Instituições de Justiça (Defensoria Pública e Ministério Público) e também ao Juiz Elton Nogueira.


Morador do Parque do Lago há 15 anos, o motorista Antônio Folgado, de 64 anos, relata que sua vida não é mais a mesma desde o rompimento. O atingido lamenta e diz que estar no local, que antes servia de morada e ponto de reencontro com os filhos, hoje é motivo de tristeza e apreensão. Segundo ele, lutar pela reparação é o que move a esperança de quem ainda tem laços com a localidade.


“Eu acredito que essa é a única forma que a gente tem de buscar o nosso objetivo. Eu acredito que as informações que estamos passando através da Aedas cheguem até o juiz.

Só através desse trabalho que o juiz pode avaliar o que estamos passando por aqui”, contou.


Cultura, esporte e lazer também são saúde e renda


O tema da cultura, esporte e lazer está ligado a outras áreas, como as da saúde física e mental. Dentre os relatos, houve mães que revelam sofrer com crianças e adolescentes adoecidas com a falta de atividades físicas e lazer, o que tem resultado em problemas como obesidade (saúde física) e depressão (saúde mental).


Impactos no turismo pelos danos ao meio ambiente (Socioambiental) e na geração de renda (Economia, Trabalho e Renda) também tocam a área de cultura e lazer. Os danos em áreas de parques e reservas naturais e a relação com o rio, contaminado há quase dois anos, prejudicam a pesca e o banho como atividades recreativas.


A assessora técnica da Aedas Márcia Nóbrega, que coordenou uma das Rodas de Diálogo na região de Brumadinho, reconhece que os danos relatados estão interligados. Ela também aponta a reparação na área voltada para as relações sociais da cultura, esporte e lazer para a reparação no cotidiano das pessoas atingidas pelo rompimento.


“Foi muito impressionante ver o quanto essas articulações culturais e de lazer são evidentes e são transversais a outras áreas temáticas e como a cultura consegue estar em todos os lugares. As relações sociais constituem a vida das pessoas e o rompimento da barragem quebra com essas relações, transformam o modo de vida e isso é o que eles (atingidos) estão tentando retomar e garantir na prática”, disse.


A assessora técnica Rosiane Bechler explicou que a Aedas se organiza em algumas áreas técnicas para fazer uma escuta mais qualificada para entender os impactos decorrentes do rompimento. "O nosso desafio é compreender junto aos atingidos quais foram os impactos na vida social, no histórico, no cultural, nas relações estabelecidas com a cultura, patrimônio, atividades de lazer, enfim. Alguns danos estão impedindo que a vida continue a ser vivida como era antes", acrescentou.


Atingidos propõem medidas emergenciais


Além de apontar os danos, as Rodas de Diálogo fomentam a participação para propor medidas emergenciais. Dentre as ações sugeridas pelas atingidas e atingidos estão a melhoria nos espaços de lazer, sendo garantida a segurança das pessoas, e a construção de espaços de convivência, como pistas de caminhada e quadras poliesportivas.


A revitalização do Rio Paraopeba, de suas margens e nascentes, é uma das principais demandas apontadas pelas comunidades. O rio é patrimônio natural da região e reunia diferentes públicos em atividades que iam da pesca a manifestações religiosas.


Outro ponto reparativo sugerido pelos atingidos é o estímulo à cultura e ao esporte através de programas de incentivo e o auxílio emergencial para trabalhadores da área, como os do turismo e do circuito da cerâmica. Os atingidos também citam que manifestações culturais como Folia de Reis, Guardas de Moçambique, grupos de artesanato locais, grupo de quitandeiras, grupos de música e grafites foram impactados e necessitam de medidas emergenciais. Quem perdeu o acesso a um campo de futebol, por exemplo, quer que essas ferramentas sejam garantidas desde já pela empresa poluidora.


A próxima Roda de Diálogos será nesta quinta-feira (24), às 18h30, com a temática Socioambiental. A plataforma usada para as reuniões é o Google Meet.




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