Modelo de desenvolvimento e conflitos no Vale do Jequitinhonha são temas de Seminário



Aconteceu entre os dias 02 e 05 de abril, no campus JK da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) em Diamantina/MG, o seminário regional “Com quantos quilos de medo se faz uma tradição?”. O seminário faz parte das programações nacionais para o “Abril Vermelho”, que marca um mês de luta e resistência popular pelo Brasil.


Esse seminário faz parte das atividades do Projeto “Veredas Sol e Lares”, e acontece a partir de uma organização conjunta entre o Observatório dos Vales e Semiárido Mineiro, Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (AEDAS) e o Movimento dos Atingidos por Barragens-MAB, houve mesas de debates, oficinas e trocas de vivências entre os participantes, que discutiram especialmente temáticas que impactam a região do semiárido: as questões energética e agrária, relações sociais de gênero e modelo de desenvolvimento.


O Veredas Sol e Lares surge a partir do edital Programa de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Cemig, um projeto inovador que prevê, através da participação social, capacitação de pessoas e formação de pesquisadores populares, a criação de uma Usina Fotovoltaica Flutuante no lago da PCH Santa Marta, localizada no município de Grão Mogol/MG que irá atender 23 municípios do Vale do Jequitinhonha.


O conceito norteador dos debates foi provocado pelas contradições e injustiças trazidas na música “Senhor Cidadão” de Tom Zé, que pode ser encarada como a materialização de muitos descasos vividos pelo povo do semiárido, mas que diariamente luta para romper o estereótipo imposto ao longo dos anos. “Senhor cidadão. Eu e você. Temos coisas até parecidas. Por exemplo nossos dentes. Senhor cidadão. Da mesma cor, do mesmo barro. Senhor cidadão. Enquanto os meus guardam sorrisos. Senhor cidadão. Os teus não sabem senão morder. Que vida amarga.” Para contribuir com as conversas, foram convidados estudiosos e estudiosas, além de atores diretos de várias frentes de luta e resistência popular



Na mesa de abertura, Gilberto Cervisnk (membro da Coordenação Nacional do MAB) e o professor Carlos Vainer (IPPUR – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ) trouxeram luz às várias complexidades que envolvem o modelo energético e o desenvolvimento no Brasil.


Cervinsk denuncia que o valor do kilowatts pago pela população chega a ser inflacionado em 10000%, já que o custo para produção de 1 kilowatts é de R$9,00 e a população paga em média R$900,00 pelo kilowatts de energia. Diante desse nível de injustiça, a organização popular é necessária. Como esse foi um dos temas da mesa, “Modelo energético e desenvolvimento”, Vainer ressaltou a necessidade de ampliar o diálogo com as bases, fortalecer o trabalho que já é feito, para que a luta diante das desigualdades possam ser ainda mais eficazes.


Além da mesa, a oficina de formação “As comunidades quilombolas do Jequitinhonha: história organização e resistência” trouxe temas como o uso da terra e diretos de populações tradicionais quilombolas. A partir do debate, o pesquisador popular Raylson Magalhães, de 19 anos e morador de Araçuai, trouxe como principal reflexão a ocupação do território, que tem recebido diversos projetos de mineração e monocultura. Ele acredita que esses projetos levam as riquezas regionais para longe, criando um desenvolvimento distante do povo do Vale do Jequitinhonha. “Por isso é importante a existência dos movimentos sociais, fortalecendo a luta pela defesa dos direitos e debatendo um Projeto Popular, onde o povo é agente transformador da realidade. As pessoas que participam retornam para suas comunidades refletindo sobre uma sociedade justa e igualitária”, conclui Raylson.


“Ou estamos comprometidos com a forma de viver dos quilombolas, ou estamos comprometidos com um projeto excludente”, enfatizou o professor Matheus Leite (PUC) no debate “Questão agrária, mineração e educação”. Ele reforçou que “os escravos vieram (para o Brasil) gerar riqueza para poucas pessoas, e a mineração segue a mesma lógica”, respondendo questões sobre a necessidade de preservar as comunidades tradicionais das investidas constantes da especulação minerária.



A dificuldade em entender os interesses dos quilombolas na terra, não como espaço comercial mas um local de vida é compartilhada também por experiências de acampamentos e assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Conforme disse Samuel, militante do movimento, quando há uma ocupação de terra, “alguns sujeitos chegam enxergando a terra como um bem comercial, para vender. Depois isso muda, vira espaço de vida”. Ele afirma que essa concepção é construída através dos processos de formação praticados pelo movimento, em um projeto de educação de pedagogia em movimento, “onde romper a cerca do latifúndio é romper a cerca da ignorância, de criar escolas, de ir pra universidade”.


Outro debatedor da noite, Clebson Almeida (CAV – Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica) ressaltou a importância das muitas experiências da agricultura familiar do Vale do Jequitinhonha, respeitando e valorizando as diversidades culturais, políticas ambientais e sociais.


No terceiro dia de debates e oficinas foi apresentado o documentário “Arpilleras: atingidas por barragens bordando a resistência”, que traz a luta e resistência das mulheres atingidas em todo o país. A mesa “Gênero, movimentos sociais e agroecologia”, reafirma, a partir de relatos do público, a necessidade desse tipo de discussão.



“Na minha escola, as meninas só podem entrar com a camisa de uniforme ou blusa gola polo de cor neutra. Camiseta e saia não pode. A justificativa é a necessidade de evitar o desejo dos meninos”, disse a estudante Ana Lúcia. Diante do relato, Bernadete Monteiro (Marcha Mundial das Mulheres) ressalta que a além da criminalização da mulher, a ofensiva neoliberal ataca principalmente as mulheres, com a retirada de direitos para aumentar taxas de lucro.


Juliana Deprá (MAM – Movimento Pela Soberania Popular na Mineração), reforça esse fato, pois “quando uma mineradora chega em um local, as promessas de emprego não alcançam as mulheres”. Dentro dessa urgência do respeito às mulheres, Lilian Telles (CTA – Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata) apresenta um conceito ampliado de agroecologia, que exige “não matem as famílias e não maltratem as mulheres”.


Malu Resende, estudante de Geografia da UFVJM, ressaltou a importância das mesas apresentadas para a formação do estudante, principalmente aqueles que, como ela, não vivenciam de perto conflitos sociais como os que foram debatidos. “É importante a gente saber como eles são afetados, porque as vezes a gente não tem (a dimensão). Eu por exemplo, que quero trabalhar com educação, é importante ter esses conteúdos para debater”. Nesse sentido, os estudos apresentados pelo professor Eduardo Ribeiro (UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais), sobre a utilização da água, a experiência com as cisternas de captação e o aumento dos períodos de seca foram vistos como positivos pela estudante.



Ainda na perspectiva apresentada na mesa “Desenvolvimentos, água e movimentos sociais”, o professor da UFVJM, André Borges, traçou um panorama, ou uma estratégia, que levou o Vale do Jequitinhonha a ser conhecido como “vale da miséria”. Ele aponta como a macroeconomia via a urgência de manter pessoas pobres e com isso manter a indústria da miséria agregada a elas. Contra isso, e diante de tanta riqueza (material e imaterial) existente na região, ele levantou a necessidade de se questionar se a miséria é de fato a imagem que representa o Jequitinhonha.


Hugo Renan, estudante de Bacharelado em Humanidades, ressaltou o caráter propositivo do seminário, por debater temas que, na visão política geral, são temas que ganham menos destaque. “Participando das oficinas, pudemos perceber a importância de discutir a mineração e a água, mas provocando questões que podem ser respondidas pelos participantes”. Além disso, ele defende que a mudança desse pré-conceito sobre “vale da pobreza” vem a partir dos debates como esses do Seminário Regional. Para ele, o Vale do Jequitinhonha poderia ser caracterizado como “o vale da riqueza cultural, que vai de encontro com a vivência da sua população”.


Não conhece a música “Senhor Cidadão”? ouça aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=zLTMM3r8wYI

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