Impactos do rompimento na vida das mulheres são debatidos em 27 Rodas de Diálogo da Aedas

“Ser atingida é ser rompida junto com todo o meio ambiente, perder um pouco da sua história, do seu espaço, mas não desistir nunca e seguir lutando pela nossa história e pelos nossos direitos”. Foi assim que Mariana Ester, moradora da Toca de Cima, em Brumadinho, respondeu a pergunta “o que é ser uma mulher atingida?”, feita pela mobilizadora Rayssa Neves em uma das Rodas de Diálogo (RD) que aconteceram nesta terça-feira (6). O tema das Rodas era justamente os danos do rompimento na vida das mulheres. Na região 1, foram 12 Rodas simultâneas e, na região 2, 15 salas de conversa.


Sendo as mulheres as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados, a maioria entre as pessoas desempregadas e no emprego informal, além de potenciais vítimas de diferentes tipos de violência, como as consequências do rompimento afetam particularmente a vida delas? O que pode ser feito para mitigar esses danos? Essas são duas das grandes questões que os diálogos buscaram responder.


Desde setembro, a Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas) tem promovido uma série de diálogos temáticos com as pessoas atingidas, moradoras dos municípios de Brumadinho (região 1), Betim, Igarapé, Juatuba, São Joaquim de Bicas e Mário Campos (região 2). As Rodas fazem parte do Diagnóstico Rápido Participativo (DRP), um processo que busca mapear os danos causados pelo rompimento da barragem e as medidas emergenciais que precisam ser implementadas para mitigá-los.


As medidas emergenciais que devem ser implementadas dentro do processo de reparação integral foram anteriormente identificadas nos Grupos de Atingidas e Atingidos (GAAs). Nas RDs, a equipe da Aedas apresenta uma sistematização das reflexões dos GAAs. O objetivo é validar as medidas emergenciais junto com as pessoas atingidas. A sistematização contém, além dos danos, propostas de medidas de mitigação desses problemas, ou seja, propostas para interromper o agravamento dos prejuízos causados pelo desastre.


Questões emergenciais


Os prejuízos relatados dizem respeito a uma série de questões relacionadas à água, ao trabalho, à saúde e à violência, para citar alguns exemplos. Nos GAAs, foram elencados mais de 100 danos diferentes. “Aqui, quando estamos falando de trabalho, é de tudo, porque sabemos que muitas vezes o trabalho doméstico não é visto como trabalho”, alerta a técnica da equipe de Economia, Trabalho e Renda Cecília Tayse Muniz, que atua na região 2. “O dano que mais apareceu foi uma dupla ou tripla jornada de trabalho intensificada pelo rompimento da barragem”, completou Cecília, que coordenou a RD da Colônia Santa Isabel, de Betim.



Cuidar dos animais, buscar água de qualidade adequada, cozinhar, limpar, passar, planejar, realizar trabalhos comunitários, cuidar de crianças, idosos e pessoas que adoeceram após o desastre. Esses são alguns dos trabalhos cumpridos majoritariamente pelas mulheres. Muitas vezes, por não gerar diretamente uma renda monetária, essas atividades sequer são chamadas de trabalho.


Muitas mulheres acumulam essas funções, que poderiam ser divididas entre todas as pessoas de um núcleo familiar, por exemplo, e atividades formais, aquelas feitas fora de casa. É o que chamamos de dupla (ou tripla) jornada de trabalho. Além disso, as mulheres realizam diversos tipos de trabalho produtivo fundamentais para geração de renda, muitas vezes informais, precarizados, ou com menores salários em relação aos homens.


Ilustração: Helena Zelic/ Sempreviva Organização Feminista

Ainda sobre trabalho e renda, foi apontado que a falta de autonomia econômica é uma das condições que pode deixar a mulher mais vulnerável às diferentes formas de violência que existem, tais como a violência física, psicológica, patrimonial, moral, sexual e virtual. Entretanto, não é o único fator. “Nem sempre a mulher é dependente. Existem casos de mulheres com trabalho, bem remuneradas e que sofrem opressão em casa, às vezes até violência!”, alertou uma atingida da Colônia Santa Isabel.


As desigualdades de gênero são uma característica da sociedade em que vivemos e desastres socioambientais, como o que ocorreu em Brumadinho e municípios ao redor, podem acentuá-las, aprofundando a vulnerabilização de mulheres, principalmente negras e de baixa renda.


Esse fato motivou a inserção de um monitoramento de gênero do processo de reparação integral no Plano de Trabalho da Aedas, que deve contemplar programas, políticas, projetos e medidas sensíveis a gênero e mesmo específicos para mulheres atingidas. Diante da complexidade de conjunto de relações e da luta pelo direito à reparação integral, criar espaços de diálogos e construção coletiva é um desafio e uma tarefa de grande importância.


Avaliação positiva


“Foi uma Roda muito boa, com mulheres muito fortes e algumas lideranças da região. Foi um momento ótimo de partilha. As mulheres já vinham demonstrando necessidades específicas tanto nos Registros Familiares quanto nos Grupos de Atingidas e Atingidos. Foi um momento bom para partilhar coisas específicas”, avaliou Nina Jorge, mobilizadora da Aedas que coordenou a RD com as comunidades de Casa Branca, Jardim Casa Branca e Parque das Águas, de Brumadinho.


“Foi uma RD bem produtiva, tivemos um número muito bom de participação. Pudemos falar sobre água, saúde, trabalho, violência e segurança. Foi uma RD em que a gente sentiu muito apoio, né? Muita união”, afirmou Sthefani Gonçalves de Oliveira, da equipe de mobilização na região 2.


“A Roda foi um espaço muito importante, onde as mulheres se sentiram à vontade para trazer um pouco da realidade em que vivem e perceber que os danos causados pelo rompimento da barragem não são só individuais, mas também coletivos. São problemas que acontecem nas suas casas, nas casas das suas vizinhas, amigas e familiares. A Roda foi um espaço de fortalecimento e de compreensão de que juntas somos fortes como as águas”, finalizou Rayssa Neves, da equipe de mobilização na região 1.


"Mulheres são como águas, crescem quando se juntam.

Por elas, por nós navegam histórias, navegam trabalho e cultura.

Mulheres são como águas , crescem quando se juntam.

Águas de fé, águas que nutrem , que cuidam.

Mulheres são como águas crescem quando se juntam.

Ribeirão de se banhar

Rios grandes e profundos.

Mulheres são como água, crescem quando se juntam.

Doces em calmaria

Revoltas quando preciso.

Mulheres são como águas, crescem quando se juntam.

De riacho, nascente, pinguelinha em rios de leitos largos ao encontro com a

imensidão das águas salgadas.

Crescendo nos encontros


Enchentes de nós,

Poderosas e altivas em vida e força.

Mulheres são como águas, crescem quando se juntam."

(Nathália Ferreira, da equipe técnica da Aedas)

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