Parque da Cachoeira é alvo de insegurança hídrica, isolamento e perfurações não notificadas

Após dois anos do rompimento da barragem B-I e soterramento das barragens B-IV e B-IV-A da mina Córrego do Feijão da empresa VALE S.A em Brumadinho, a comunidade do Parque da Cachoeira (que engloba Parque do Lago e Alberto Flores), passa por sérios problemas de segurança pública e hídrica.


O Parque da Cachoeira é uma comunidade localizada em uma das regiões mais próximas do local onde a barragem do Córrego do Feijão se rompeu , por isso chamada de Zona Quente. Em um rápido trajeto na região, é possível ver ruas e casas abandonadas, muitas delas da mesma maneira que seus moradores tiveram que deixar em 25 de janeiro de 2019. Há relatos de que nos locais próximo à “curva do rio”, onde a lama “bateu e voltou”, foram encontrados por volta de 60 corpos, e cerca de cinco moradores do Parque da Cachoeira participaram ativamente das buscas neste local.


Após o rompimento, a comunidade se deparou ainda com o não reconhecimento do Parque do Lago como bairro atingido ou integrante do Parque da Cachoeira. Nos espaços participativos da Aedas (Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social), assessoria técnica independente de Brumadinho, moradores relatam que essa divisão não está em conformidade com ofício emitido pela prefeitura e acarreta muitos danos aos moradores do Parque do Lago, que não têm seus direitos resguardados. Quem mora no local afirma, recorrentemente, que Parque do Lago e Parque da Cachoeira são quase uma só comunidade, de tão próximos.


Diversos são os relatos de insegurança e cansaço diante dos danos do rompimento, que perduram até hoje e agravam a situação da comunidade. Um dos mais graves é o medo e insegurança de respirar a poeira do rejeito (Foto abaixo), e também a ausência de informações sobre a qualidade da água. A antiga linha do trem, atingida pelo rejeito, se transformou agora em uma estrada que é utilizada pela mineradora, com tráfego intenso de caminhões, ocasionando muita poeira para a comunidade.

A população afirma que a ausência de resposta, tanto da Vale quanto da Copasa, acerca da qualidade da água, diante das visitas técnicas realizadas, bem como irregularidade do abastecimento hídrico tem gerado muita aflição entre moradores. Por volta de uma semana, a população vem denunciando a perfuração de poços artesianos em alguns pontos da comunidade sem aviso prévio, nem notificação aos moradores, às Comissões de Atingidos e Atingidas ou a Associação de Moradores, mesmo diante de ofícios e reclamações feitas aos canais de atendimento da Copasa.(FOTO)


Insegurança hídrica


Até meados de 2018, o abastecimento de água da comunidade era feito por meio de poços artesianos próprios, com canalização e manutenção arcados com arrecadação da comunidade e pela prefeitura. Pouco tempo antes do rompimento, o abastecimento hídrico do Parque da Cachoeira passou a ser realizado pela Copasa, que, segundo relatos de moradores, não realizou a troca dos canos e tubulação da rede geral, e também não implementou saneamento básico.


Em consequência do rompimento, a comunidade relata que a Copasa abrira dois novos poços artesianos, visto que a lama soterrou os antigos poços da comunidade utilizados para o abastecimento, que vem sendo feito com a água dos novos poços e por caminhões pipa. Entretanto, desde janeiro de 2021, a comunidade tem se deparado com um cenário de agravamento da falta de água.


Moradores organizados na Associação Comunitária Parque da Cachoeira, Parque do Lago e Alberto Flores (ACOPAPA), já fizeram a denúncia à 1ª Promotoria de Justiça de Brumadinho, bem como a população também notificou a Copasa por meio do telefone 115 e abriu chamadas via aplicativo (“Estou sem água”). A Aedas também já enviou ofício às instituições de justiça pedindo que intervenham na resolução desses problemas hídricos.


De acordo com os relatos de moradores/as e membros da Comissão de Atingidos e Atingidas, a quantidade da água fornecida pela Vale sempre foi insuficiente (cinco fardos de água por família semanalmente), com diversas interrupções, relatos de contas de água com preços exorbitantes, bem como insegurança relacionada à qualidade hídrica. A comunidade denuncia que, embora a Copasa disponibilize resultados de análises laboratoriais periódicos, é necessário que sejam analisados parâmetros como a presença e concentração de metais pesados na água subterrânea, essenciais para a realidade que a comunidade vive no contexto pós-rompimento, e que não vem sendo feitos até então.


A população organizada reivindica ainda melhoria das condições da caixa d' água

comunitária, incluindo o fechamento e elevação do cano de abastecimento que atualmente está aberto e ao nível da rua (foto ao lado), bem como informações detalhadas sobre a origem e a qualidade da água que abastece essa caixa, como o local de captação da água. Há ainda problemas na logística de entrega de água pela Vale, o que acarreta funções extras ao presidente da Associação (ACOPAPA), Ademir Aricate, que precisa fazer este serviço de entrega que não é de sua responsabilidade. Segundo ele, diversas funções, para além dessas, vêm lhe causando sobrecarga.


Euler Silveira, membro da Comissão de Atingidos e Atingidas do Parque da Cachoeira, relata que por volta de uma semana, dois pontos na comunidade estão sendo perfurados pela Copasa para construção de poços (foto abaixo). “Nem Associação, nem Comissão foram avisados, mesmo com várias aberturas de protocolo junto à Copasa. A Copasa foge. Os técnicos e encarregados da Copasa que abordei antes da perfuração, falaram que havia a necessidade mas não havia data ainda, sem previsão. Do nada começaram a perfurar, sem falar nada com a gente. Diariamente temos problemas com água e não se sabe se o lençol freático tem alguma relação com a lama. Tem algo errado”, relata.


De acordo com o morador, uma perfuração é ao lado do Posto de Saúde, próximo a um lago, e a outra na Rua Íris Diniz. “Essa perfuração da Rua Íris é curiosa, porque no passado a própria Vale furou um poço artesiano lá e ele não deu água e agora a Copasa tá furando basicamente no mesmo local”. Segundo ele, a situação é caótica, pois todos dias, sem exceção, falta água, vem fracionada durante o dia e ninguém sabe sobre a qualidade. “Antes a comunidade não tinha problemas com água. Nossa água era praticamente gratuita, era uma rede bem caseira. Depois do rompimento, a Copasa não fez nenhuma mudança na rede hídrica. Os caminhões pipa que nos abastecem, ninguém sabe a integridade da água. É um descaso. Um terço do nosso bairro não existe mais, e a maior carência da nossa comunidade é o saneamento básico, e os problemas com a água”, afirma.


Isolamento


Segundo os moradores, a transferência de responsabilidade entre Vale, Prefeitura e Copasa diante das obrigações de fazer na zona quente também gera uma insegurança pessoal das lideranças.


Outro fato que prejudica o Parque da Cachoeira é a ausência de lazer, principalmente depois da construção de uma creche e um PSF (Posto de Saúde da Família), exatamente no local onde era o antigo campinho da comunidade, único espaço de sociabilidade que possuíam. Inaugurados respectivamente dias 18 e 11 de fevereiro, há reclamações de que o quadro de funcionários não é suficiente para atender à população, sendo necessárias mais equipes de saúde e agentes comunitários. Dessa forma, o uso abusivo de álcool e drogas, bem como a necessidade de cuidados em relação à saúde mental, também pela juventude, revela a urgência de mitigação desses danos sofridos.


Durante a inauguração do PSF, dia 10 de fevereiro, o prefeito de Brumadinho, Avimar Barcelos, chegou a falar das dificuldades de manter o Complexo. “Fazer é fácil, Vale. Difícil vai ser manter. O padrão correto que deveríamos ter feito com a Vale, era que ela mantivesse isso aqui uns 15 anos pra nós. A Prefeitura está numa situação super delicada, mandando várias pessoas embora porque não conseguimos bancar mais nossa folha de pagamento. É mais um custo grande aqui, outro custo grande ali”, alertou o prefeito. Euler Silveira, afirmou que teme que a obra se transforme em mais um “elefante branco”.

Também é motivo de descontentamento, a falta de manutenção e destinação para as casas compradas pela Vale no Parque da Cachoeira, que se encontram inutilizadas e abandonadas, sendo alvo de roubos, proliferação de insetos e matagal, trazendo insegurança à comunidade. Há ainda piscinas nas casas abandonadas que são, possivelmente, reservatório de doenças de veiculação animal.









Segundo a Comissão de Atingidos (as), anteriormente havia um programa em que drones jogavam cloro nas piscinas; no entanto, isso feria a privacidade das demais moradias na região. Sendo assim, o programa foi encerrado, mas a população afirma que é necessário que se pense em outras estratégias para as piscinas abandonadas, já que elas são um

grave problema.


As ruas do bairro também se encontram em condições precárias. Falta iluminação pública e alguns moradores/as vivem isolados/as em suas residências sendo, por vezes, os/as únicos/as habitantes de uma rua, devido a evasão pós rompimento.


Resposta aos ofícios


Até o momento não houve um pronunciamento oficial das instituições de justiça sobre os problemas de crise hídrica no Parque da Cachoeira, ocasionados pela poluidora Vale.


Uma reunião com a Copasa que estava marcada para esta sexta-feira (19), às 16 horas, foi remarcada para segunda-feira (22), às 15 horas. O encontro tem como objetivo discutir a insegurança hídrica das regiões 1 (Brumadinho) e 2 (Betim, São Joaquim de Bicas, Mário Campos, Juatuba e Igarapé), ambas assessoradas tecnicamente pela Aedas. É permitida a participação de três pessoas atingidas para cada região.



** Fotos: Moradores do Parque da Cachoeira e Mobilizadores da Aedas

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