Roda de Diálogo de mulheres quilombolas de Brumadinho acolhe medidas emergenciais

Na terça-feira, dia 27 de outubro, a Aedas construiu um momento muito importante junto às mulheres quilombolas da cidade de Brumadinho. Foi a Roda de Diálogo das Mulheres Quilombolas que, mesmo com a dificuldade de acesso à internet, recebeu mulheres dos quilombos de Sapé, Rodrigues, Marinhos e Ribeirão, e foi mediada por uma equipe multidisciplinar de mulheres da assessoria técnica, composta por assessora de gênero, de mobilização, assessora jurídica, pedagoga e comunicadora social.


A Roda de Diálogo com as mulheres quilombolas, tinha a intenção de levantar novas medidas emergenciais específicas a essas mulheres que são, em sua grande maioria, negras; e validar as medidas sugeridas pelas comunidades nos Grupos de Atingidos e Atingidas, além de acolher e escutar as demandas das mulheres.


A Roda teve início de forma lúdica, com a poesia “Nossas vozes” de Conceição Evaristo, e “Mãe Preta” de Luedji Luna sendo recitada pelas assessoras; e seguiu de forma mística em todo o decorrer do espaço. A metodologia foi dividida em três momentos, uma dinâmica de palavras virtuais que perguntava às mulheres “o que é ser mulher quilombola”, e no segundo momento com a mesma dinâmica que perguntava “como você se sente após o rompimento enquanto mulher?”. Com a condução da pedagoga Verilucy Brito, essas questões tinham como objetivo estimular o terceiro momento, que seria o levantamento da identificação de novos danos a partir de suas falas.


Esse foi um momento bastante forte e de sensibilização, tanto para quem colocava seus depoimentos, quanto para quem estava com a escuta ativa para sistematizar os danos. E as mulheres se sentiram bastante à vontade para trazer suas questões, conforme é apresentado abaixo a partir de suas falas:


“O que é ser mulher quilombola?”

maravilhoso

ser negra

luta todos os dias

compartilhar com a dor dos outros

ser negra e solidária

ser pé no chão e não se deixar cair

vida

força

alegria

ser resistência

orgulho

ser forte

ser guerreira

orgulho de vir de uma família toda negra

ancestralidade

manter a nossa ancestralidade

vivência dos nossos antepassados

ensinar a nossa cultura

vamos passar pros filhos da gente

respeitar o outro

o preto e o branco

a mulher quilombola é mais forte do que as pessoas mais brancas

mais sofrida

guerreira que trabalha para sustentar seus filhos

levar o legado de nossos pais pra frente

a cidade não é igual a nossa comunidade

não permitir que tirem isso de nós

coisa que é nossa, podemos bater no peito e falar

ser negra, preta mesmo

poderia nascer mil vezes, queria nascer do mesmo jeito que nasci, negra


“Como você se sente após o rompimento”

CANSADA

vida virou de pernas pro ar

reunião atrás de reunião

sem tempo para sua casa, por ser presidente da associação

DESGASTE como mulher

IMPACTO violento demais

pelas vidas que se foram, 2 pessoas do Quilombo de Marinhos

por tentarmos gritar que nós estávamos vivas do lado de cá

as mulheres que tiveram que falar isso, não foram os homens

nós estávamos esquecidas

foi um pavor tão grande

foi um desconforto muito grande e continua sendo

não tem como passar ali (local do rompimento) e não pensar lá dentro do seu íntimo, das suas emoções, cada vez que a gente olha a gente lembra

ficamos desesperadas, porque conhecemos as pessoas que falta encontrar entes queridos, é uma dor tão grande e você não pode fazer nada por aquilo, pra essas famílias terem um enterro digno

mulher é mais emotiva que os homens pras coisas às vezes

sem hora pra comer, é marido, é filho

não tem como você não se emocionar ao falar dessa porcaria toda

essa podridão

esse acontecimento poderia ter sido evitado

tragédia anunciada, as rachaduras

ainda tem os engraçadinhos, as lideranças, que ficam fazendo piada com a gente que é mulher


achar que a gente não tem grau de estudo por ser quilombola

que só eles que têm pós graduação, que é só eles que têm estudo

que na verdade são os brancos mesmo que são formados

agora que nós temos alguns exemplos dentro da comunidade

pra gente é ruim a gente participar de uma reunião do conselho, e o tempo todo as pessoas te apontando, que não era pra você estar ali, porque você não tem estudo

pra gente é chumbo grosso

é muito difícil segurar as pontas da comunidade

temos centralidade nas quatro comunidades e maioria das lideranças são mulheres, estão sempre juntas umas com as outras, o que uma não sabe a outra fala

ser mulher depois desse rompimento ficou muito mais difícil

esse impacto dificultou em tudo a nossa vida, e a gente não pode aceitar qualquer coisa não

dor das famílias que perderam seus entes e foram impactadas

deus abençoe as famílias que perderam seus entes

é difícil expor

sem explicação, sem palavras

ficamos sem chão, perder um ente e nunca encontrar

além de desumano, raiva e tristeza ao mesmo tempo

sentimento de muita dor

meu filho fazia acompanhamento no CAPS e teve que parar, até hoje ele não pode voltar, pandemia atrapalhou mais ainda

nós da zona rural, ficou impactante, ficamos jogado às traças.

ficamos à mercê de qualquer coisa

há outras barragens para romper

fico insegura, me dá calafrios, a mercê de outro perigo

dizem que ela não chega até aqui, mas não sabemos

não sabemos a verdade, há algumas pessoas que falam que as trincas é em outra barragem, mas um funcionário de lá já disse que é a mesma barragem, que ainda tem rejeitos

ainda fazemos papel de ruim, sendo que ninguém foi preso até agora

qualquer hora essa outra barragem se rompe

falaram que é pouco rejeito e que não chega no leito do rio, que isso não aconteça, que deus ponha a mão

e as outras vidas que estavam lá?

já tiraram os bombeiros, então ela está em perigo, e a Vale não toma nenhuma providência, pois lá ainda tem vidas. vai esperar ela se romper? levar mais vidas?

conheço gente que trabalha lá dentro e estão trabalhando com medo


A partir dessa dinâmica, como é possível observar, as mulheres foram trazendo inúmeras questões de saúde mental, de racismo institucional presente em atitudes racistas de deslegitimação e desqualificação de suas falas em espaços públicos por serem mulheres negras e quilombolas; além do medo e insegurança permanentes em relação ao rompimento de novas barragens na região. Elas mesmas foram costurando todo esse conjunto de emoções e sensações com o fato de trazer em suas entranhas a possibilidade latente da vida, uma vida que precisa ser digna, e por isso são as mulheres que sentem essas dores mais a fundo quando um desastre dessa magnitude acontece.


Na sequência, a assessora de gênero Julia Elisa reafirmou os compromissos da assessoria técnica independente, e a importância de as mulheres estarem juntas nesse processo. A assessora de mobilização, Naiade Britto, também reiterou a importância da participação das atingidas na identificação dos danos morais, para que a luta junto às instituições de Justiça se concretize em indenizações por tudo isso que estão passando.


Como parte da programação, foram apresentadas sete medidas coletadas nas Rodas de Diálogo de Marinhos, Ribeirão, Rodrigues e Sapé, como, por exemplo, uma Casa de acolhimento à mulher com atendimentos jurídico, psicológico e assistência social.

A moradora do Quilombo do Ribeirão, Janaina da Conceição, fez pontuações bem contundentes sobre o pagamento do retroativo referente ao auxílio emergencial. De acordo com seu relato, a poluidora Vale pagou o retroativo somente para alguns, mas ela alerta que o direito é de todos. Para ela, a empresa deve pagar os outros 50%, uma vez que estão pagando de forma parcial os auxílios de algumas comunidades. As mulheres quilombolas tiveram suas vidas e renda familiar afetadas pelo rompimento, ela explica:


“Ficamos sem ter como ir pra Brumadinho, ficamos sem o direito de fazer nossas consultas médicas, de ir e vir, e o livre arbítrio? A Vale é obrigada a pagar porque ela deu para nós um dano imenso. Ela deve fazer um acordo para pagar o retroativo, porque ela está escolhendo os bairros que tem direito. Como pode? Se pessoas que moravam na cidade de Brumadinho e tinham como ir e vir estão recebendo, porque nós, que ficamos aqui isolados após o rompimento não estamos?”, destacou Janaína.


Além dessas colocações, as mulheres quilombolas trouxeram como medidas emergenciais novas a construção de creche nos territórios quilombolas, exigindo ainda que sejam pessoas da comunidade que trabalhem nesses espaços; além da necessidade de psicólogos, pelo menos uma vez por semana em cada comunidade quilombola.


Houve ainda a exibição de um vídeo feito pela equipe de comunicação da Aedas com imagens das mulheres quilombolas, e as mulheres finalizaram a roda com mais poesia e música, onde a liderança Nair de Fátima encantou no final: “Meu Pai Quilombo, eu também sou quilombola, a nossa luta é todo dia e qualquer hora”.



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