Rodas de diálogo em quilombos de Brumadinho discutem patrimônio, danos socioambientais e saúde

Atualizado: Out 14

Desde Setembro, a Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas) deu início a uma série de Rodas de Diálogo (RD) nas regiões 1 (Brumadinho) e 2 (Betim, Igarapé, Juatuba, Mário Campos e São Joaquim de Bicas), com o intuito de validar as medidas emergenciais que foram discutidas dentro dos Grupos de Atingidos e Atingidas (GAAs), ou seja, aquelas medidas mais urgentes que devem ser tomadas após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho.


O processo de reparação integral é longo, mas algumas medidas precisam ter respostas mais imediatas. Por isso, a Assessoria Técnica Independente (ATI) deu início às rodas com o tema do Auxílio Econômico Emergencial, e tem seguido com os assuntos de suas áreas temáticas de atuação.





No sábado do dia 3 de outubro, foram realizadas as RD com as comunidades quilombolas assessoradas pelas Aedas. Os encontros aconteceram com as comunidades de Marinhos, Rodrigues e Ribeirão ao mesmo tempo. A comunidade de Sapé, infelizmente, não participou por problemas de acesso à internet, embora a comunidade tenha se organizado para participar. Nesta segunda roda, os temas foram patrimônio cultural, cultura, esporte e lazer; questões socioambientais e saúde. No dia 8 de outubro (quinta-feira), acontece a terceira roda de diálogo, às 18h30.


Essas demandas emergenciais foram levantadas pela própria população em outros espaços participativos e o objetivo das Rodas é saber se há algum questionamento, ou se as pessoas atingidas querem acrescentar algum ponto para ser cobrado dentro da Ação Civil Pública, pela Vale, pelas Instituições de Justiça ou pelo Poder Público. Os e as assessoras técnicas da Aedas costumam iniciar os diálogos fazendo uma contextualização sobre o fato de que o momento que está sendo vivenciado agora é uma continuidade de outros anteriores, logo, são etapas, e uma complementa a outra: os Registros Familiares, os Grupos de Atingidos e Atingidas e, agora, as Rodas de Diálogo.


Leia mais: Quilombos de Brumadinho relatam danos em grupos virtuais da Aedas


“Algumas pessoas ainda estão com dúvida sobre o que é o Registro Familiar (RF), mas esse processo é contínuo, e os registros continuam. O RF é o início do trabalho da assessoria. Uma forma da assessoria técnica se aproximar das pessoas atingidas, com o intuito de fazer uma conversa e entender o que o rompimento impactou ali dentro daquela família. Depois vem os GAA, que também irão continuar acontecendo”, informou na roda a assessora técnica da Aedas, Winy Mangabeira.


Nas rodas quilombolas, também é informado sobre o ‘Protocolo de Consulta’ que as comunidades vêm construindo para a Aedas, em que elas têm registrado como querem que se dê o trabalho da assessoria em seus territórios. Nada pode ser feito nesses espaços sem que as própria comunidades autorizem.


Também foi informado nas Rodas sobre o Termo de Referência (TR) que irá aprofundar e detalhar o conteúdo dos serviços a serem contratados e executados pelas Consultorias Especializadas nos quilombos. O Termo vem sendo construído em conjunto com a Aedas e as comunidades quilombolas; para isso, cada quilombo indicou duas pessoas de cada comunidade para acompanhar a definição do TR.


Jeferson Pereira, assessor técnico da Aedas, explica que a Consultoria vai ser uma espécie de braço da Assessoria Técnica, em campo, atuando em diálogo. “Tudo que foi proposto no Protocolo de Consulta para a Aedas também vale para a Consultoria”, explica. As Consultorias Especializadas vêm no sentido de aprofundar a identificação e caracterização dos danos de determinados grupos, como os quilombolas, levantando informações complementares e intensificando as especificidades dos danos sofridos por esses grupos.


Socioambiental


As sugestões de medidas emergenciais são dos quatro quilombos, e ao longo da conversa algumas pessoas vão entrando em contato com novas propostas que porventura ainda não haviam se deparado. No tema das questões socioambientais, ou seja, que envolve as pessoas e a natureza, a água foi o elemento que teve prejuízos maiores.


O assessor ou assessora da Aedas apresenta os danos e as medidas sugeridas pelos próprios moradores, que resolveriam com urgência o problema apresentado. Sobre a água, o acesso à informação foi uma dessas medidas, onde reivindicam exames sobre a qualidade da água, com divulgação de seus resultados para a comunidade.


Foi relatado também o problema da revitalização da Cachoeira Três Tombos, no Quilombo Rodrigues. Segundo moradores quilombolas presentes na Roda, uma vez que o Córrego deságua na cachoeira, revitalizando o Córrego, a cachoeira é limpa diretamente, contribuindo assim, para o lazer e turismo presente nos quilombos, uma vez que a Cachoeira está presente neste espaço como um patrimônio natural, que será apresentado mais adiante.


Saúde


Em relação à saúde, o que se relata é que o rompimento impactou diretamente no bem estar das pessoas. As comunidades precisam de transporte disponível para levar as pessoas às consultas. As comunidades relatam ainda que alguns resíduos são cancerígenos. “A gente não tem como mencionar agora, mas no futuro pode vir coisa ainda pior. O resíduo não vai fazer você perder algum órgão ou membro de um dia pra noite, mas ao longo do tempo ele vai criando outras doenças no seu corpo”, explicou Everton Silva, morador do Quilombo de Rodrigues.


A saúde emocional também foi um ponto em que se pediu acréscimo de medidas emergenciais, uma vez que a saúde mental dos moradores quilombolas foi afetada após o rompimento, pelo fato de que o trajeto diário dessas pessoas é o caminho por onde a lama passou. Fernanda Antunes, também moradora de Rodrigues, colocou que problemas na saúde mental também acarreta outras doenças.


As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) também foram tema das medidas da Roda de Diálogos nos quilombos. “É um sistema que integra vários elementos. Não é somente um postinho de saúde, são outras unidades, um sistema de proteção da saúde, que possa prevenir os problemas de saúde, que possa tratar não apenas com medicamentos, mas com outras práticas integrativas, com acompanhamento de vários pontos que se interligam, toda uma rede. Se você tem a prevenção, você cuida da saúde o tempo inteiro”, explicou Jeferson Pereira, assessor técnico da Aedas.]


Patrimônio Cultural, Cultura, Esporte e Lazer


Comunidade Quilombola de Marinhos


No debate sobre Patrimônio Cultural, Cultura, Esporte e Lazer; foi discutido sobre o estigma do território, que teve seu turismo reduzido, uma vez que as festas tradicionais não foram mais visitadas e eram o grande atrativo dos quilombos para comercializar seus produtos.

“O ser, agir e viver nos quilombos, tudo isso faz parte da cultura quilombola”, introduz a assessora Winy Mangabeira, que apresenta a proposta de um Programa de Valorização Cultural, sugerida pelos quilombos, para que a continuidade das tradições esteja presente no território.


Joelma das Graças, quilombola da Comunidade de Rodrigues, ao serem provocados por Winy sobre o patrimônio existente nas comunidades, afirma que “O ser quilombola em si já é um patrimônio cultural, junto com as nossas tradições”.


A roda também discutiu sobre Patrimônio Material e Imaterial, abordando a proposta da elaboração do registro de bem imaterial a nível estadual para a Guarda de Moçambique nos quilombos. Na Roda de Diálogo do Quilombo Rodrigues, os moradores pediram para acrescentar os Congados, e no Quilombo Ribeirão acrescentaram a Folia de Reis.


Aprofundando a discussão sobre patrimônio, Joelma das Graças, de Rodrigues, apresenta um novo elemento às medidas: os muros presentes nos quatro quilombos, construído ainda à época da escravidão. “Sobre a boa representatividade da nossa cultura, uma das coisas que é bem relevante nesse momento, é essa preservação. Eu mesma morei em casa de tijolo que nós mesmos fizemos, com restos da estrutura física dos antigos. A dez metros da nossa casa tem um muro, que foi feito pelos escravos”, relata.


O relato de Joelma trouxe questões profundas sobre áreas nos quilombos que devem ser tombadas, além do levantamento histórico desse patrimônio material. Segundo ela, o muro demarca a área quilombola. “Se a Vale é uma das empresas mais ricas do mundo, ela tem a obrigação de reparar tudo. Porque todas essas construções deram origem à gente. Se a gente tiver algum projeto, alguma política pública pra continuar isso seria maravilhoso para todo mundo, um grande bem, porque a nossa história é pro mundo”, contesta Joelma. Já Everton Silva, explica que mais do que construções, o muro também significa o sofrimento que eles carregam, pelo fato de ser preto, de ter nascido nesses lugares, e toda trajetória de suas histórias.


É importante destacar que as Consultorias Especializadas que estão em vias de contratação, farão esse resgate histórico das comunidades. Além disso, as comunidades também reivindicam um espaço para cinema, bem como praças arborizadas e espaços para as pessoas se encontrarem, na tentativa de promover espaços de integração entre as pessoas das quatro comunidades quilombolas.


No Quilombo Ribeirão, também foi pontuada a necessidade de se trabalhar e aprofundar o estudo da a Lei 10.639 (que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas) e das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, como maneira de reconhecer a própria história, propondo assim, a criação de um Memorial dos próprios quilombos para o futuro.


Leia mais: Plano de Trabalho Contextualizado da Aedas para as comunidades quilombolas


AEDAS - Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social

© 2017 -  Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social

Rua Frei Caneca, 139, Bonfim - Belo Horizonte / MG - CEP: 31.210-530